Entrevista com Barbara Andrade, professora de Educação Física e Corredora

Em conversa com a Barbara Andrade de Jesus, professora de Educação Física que redescobriu sua profissão através de mudanças em sua própria alimentação, prática de atividade física e em sua forma de encarar a vida, trazemos a você mais uma entrevista!

Madelaine: Muitas são as pessoas que pensam que o profissional de Educação Física tem, por obrigação, viver a vida mais saudável do mundo. Mas parece que as coisas não caminham sempre por aí, até porque são pessoas como quaisquer outras que sentem vontades, preguiça e por aí vai. 

Por outro lado, penso que a cobrança do meio e a autocobrança devem ser também muito pesadas, até porque sempre consideramos as pessoas com essa formação grandes exemplos a serem seguidos. 

Como foi para você essa história de perceber seu estilo de vida e sua saúde? E como isso tudo te influenciou, de forma positiva ou negativa, a desejar uma mudança de vida?

Barbara: Isso é verdade! Muitas pessoas, logo que nos conhecem, esperam que sejamos sarados, felizes e sorridentes 24h por dia e que não reclamemos nunca de problemas.

No meu caso, eu nunca fui uma pessoa de biotipo magro, então desde da adolescência já me cobrava na hora de comer, comprar roupas, enfim… 

Sempre me achei gorda, mesmo não sendo. Durante o período da faculdade, por eu sempre estar no meio de práticas esportivas, consegui manter a imagem de um corpo mais ou menos, aquele que ninguém diz que é magro e nem gordo. 

No último ano da faculdade sofri uma perda gestacional, unindo com nervosismo pré-TCC e ansiedade de universitário recém formado que não sabia se arrumaria emprego na área, minha preocupação com a minha saúde foi pífia. 

Eu relaxei muito e mesmo trabalhando sempre no meio do fitness (academias e estúdios) eu ganhei muito peso, cerca de 10 kg. O meu emocional ficou completamente abalado, em alguns dias eu chorava quase o tempo todo pensando que eu nunca conseguiria mudar a minha realidade. 

Eu nunca almejei um corpo “magro-padrão”, mas eu queria incluir na minha rotina os hábitos saudáveis que eu tanto dizia aos meus alunos que eram importantes. Como profissional, eu me sentia completamente fracassada por estar “vendendo” uma realidade que nem para mim era possível e por conta disso eu cogitei até em mudar de área profissional.

E quando você percebeu que era a hora de mudar?

As coisas começaram a mudar há cerca de um ano e meio, quando eu comecei a trabalhar na academia que estou atualmente e passei a observar a rotina dos meus amigos de profissão e como alguns deles conseguia incluir os hábitos saudáveis no dia a dia. 

A minha mudança não aconteceu de uma hora para outra. Levou cerca de 8 meses até eu me encarar verdadeiramente e começar a aplicar pequenas mudanças no meu dia a dia. 

As pessoas próximas a mim (e isso inclui minha família) que antes me condenavam por pregar o que eu não vivia, passaram a me incentivar e ajudar com essas mudanças. 

Hoje eu não me vejo fora da Educação Física e eu não me vejo também sem praticar atividade física por prazer, pois foi isso que se tornou: é um prazer ir para a academia, clube, aula de dança e saber que com isso meu corpo está me agradecendo.

Além disso tudo, eu acabei incentivando muitas alunas que já me conheciam, mas que também se sentiam estagnadas e através disso criamos possibilidades dentro da rotina de cada uma delas para que tenham oportunidade de estarem sempre ativas realizando algo que lhes dê prazer e não que seja visto como uma obrigação.

Hoje em dia posso dizer que, como professora, o que me deixa mais feliz é quando uma aluna me olha e diz “você me motiva” ou “você me incentivou”. O que antes era só tristeza e raiva, hoje em dia é só alegria e sentimento de determinação em saber que eu posso fazer mais por mim e por todos meus alunos.

E nessa, gostaria de ressaltar que existe muita pressão em cima de nós, que somos os “profissionais da saúde”. 

Diante de toda a sua trajetória em relação à atividade física , me peguei pensando aqui uma coisa: como é que você, enquanto professora, observa a mudança de comportamento dos seus alunos conforme o seu comportamento também muda? 

Até porque o impacto não é só físico. a gente fica mais disposto, animado… as pessoas enxergam isso e acabam se animando junto, não?

Acredito que vá de cada profissional. Eu gosto muito de manter um bate-papo com meus alunos, tanto de forma coletiva como individual. 

Às vezes, o aluno está ali no cantinho da academia meio desanimado e eu já chego para puxar conversa.

Alguns se sentem bem à vontade para conversar sobre questões pessoais, pois, me conhecendo, sabem que eu nunca irei julgar.

Além disso, a gente conta muito com as redes sociais. Desde que eu comecei as mudanças de hábito na minha vida, faço questão de estar sempre compartilhando e, por conta disso, recebo sempre feedback positivo da parte deles. 

Principalmente os compartilhamentos sobre alimentação. Às vezes, quando eu tenho um dia mais corrido, acabo não compartilhando nada e sempre vem alguma aluna me perguntar se está tudo bem. 

Isso é muito legal porque eu vejo que nada do que eu faço é em vão. Sempre terá alguém de olho.

E como é para você quando algum aluno fala que desistiu ou some? 

Em algum momento uma conversa mudou o rumo de uma história que ia acabar em desistência?

Em relação à questão de desistência dos alunos, é uma coisa que todo profissional de Educação Física se acostuma com o passar dos anos. 

Quando o aluno chega cheio de sede por mudanças, seja na academia ou no clube, nós somos os primeiros a incentivar a seguir em frente. 

Sempre que necessário, fazemos adaptações nos treinos ou nas aulas para que o aluno sinta-se sempre motivado a estar praticando algo. 

Porém, como tudo na vida, não depende só de nós. É muito triste para mim quando vejo um aluno desistindo de praticar por conta da família (acontece principalmente com as mulheres), ou da rotina estressante. 

Nesses casos, eu tento manter uma boa conversa, mostrar as consequências de uma possível desistência e quando conheço a rotina do aluno, dou até dicas de como se manter ativo. Às vezes conseguimos manter, às vezes não.

E diante da sua história de lutas, de perdas e de ganhos, penso que a aproximação com os alunos deve ser ainda maior, visto que quanto menos herói nos parecemos, mais humanos somos e, de certa forma, mais heróis somos, não?

Para mim, essa questão de ver a mudança progressiva do aluno é a parte mais bonita e mais delicada da nossa profissão. 

Bonita porque a gente vê o aluno saindo de uma rotina que o deixava infeliz para algo que lhe traz prazer; e delicada porque no meio desse processo, ele vai pensar muitas vezes em desistir e a desistência também faz parte do nosso trabalho, pois temos também de ajudá-lo a se manter firme na meta. 

É muito incômodo e às vezes doloroso sair da zona de conforto, mas eu, enquanto profissional, faço de tudo para mostrar o quanto isso é necessário e como esse pequeno passo trará consequências positivas.

E nesse processo de desistência, como você enxerga as redes sociais?

Veja, perguntou isso pelo seguinte: são muitas e muitas as influencers de vida fitness mostrando as suas rotinas que pouco ou nada se adaptam à vida de uma mulher como nós. Aí vem você. Eu sou sincera em te falar que adoro suas publicações, porque sempre vejo a leveza como você mostra seu café da manhã – que hoje tinha café com leite, né? – que cabe na vida de qualquer pessoa.

Você disse que as pessoas vem perguntar se aconteceu alguma coisa quando você não publica. Se é assim, podemos mesmo acreditar que a vida real exerce uma grande influência na vida das pessoas, não?

Eu percebi no decorrer dos anos que quanto mais eu compartilho sobre algumas questões pessoais, mais os alunos se identificam e sentem-se seguros para se abrir. A maioria deles chega nas academias com medo de julgamentos e quando percebem que eu sou um ser igual a eles, mais motivados se sentem em ir adiante com a rotina de treinos.

Eu acho bem importante manter essa particularidade, claro que respeitando sempre a relação professor-aluno. O retorno prático é bem positivo, pois geralmente quando essa aproximação acontece, a chances do aluno largar o processo pela metade e bem menor.

Já ouvi de muitas alunas que quando me conhecem a primeira impressão é de que eu sou só uma menininha, mas depois que começa essa aproximação, percebem que a mulher responsável e cheia de histórias que sou.

Eu acredito que as redes sociais tem grande impacto sim na rotina das pessoas. 

Veja, hoje em dia a gente passa praticamente metade do nosso dia conectado e consumindo os que as redes sociais oferecem, sejam produtos, serviços e com a atividade física não seria diferente. 

Eu conheço pessoas que se sentiram motivadas a iniciar a prática de uma atividade após passar a acompanhar a rotina de uma dessas figuras do fitness, portanto, eu não as condeno 100% do tempo. 

Contudo, eu creio que na maioria das vezes, muitas dessas figuras prestam um desserviço porque vendem a mudança de hábitos como algo fácil para todas as pessoas e nós profissionais da área, sabemos que não é bem assim.

Além disso, tem a questão de acessibilidade, como o café com leite que você mencionou.

Essa questão da mudança de hábitos alimentares é bem polêmica. Muitos acham que é passar a viver a pão – low carb – e água. 

Como é feito seu acompanhamento hoje, o que você deixou de comer e o que você nunca abre mão de comer?

Quando eu comecei a aplicar essas mudanças na minha vida, prometi para mim que eu seria minha própria motivação para me manter firme, pois já segui muitas figuras públicas por um tempo e elas só me faziam sentir pior. É cliché, mas é o que funcionou para mim.

Por outro lado, eu sempre olho muito para os meus amigos e como eles avançam na vida, então de certa forma eles me inspiram sim.

O André Nannetti que passou a ser meu nutricionista nesse ano, mas já é amigo há 10 anos, é uma dessas pessoas.

Eu sou totalmente contra radicalismos, então a única coisa que eu deixei de consumir esse ano foi bebidas alcoólicas e refrigerante, mas parei por promessa e não pelas mudanças em si.

Eu acredito que pra gente conseguir fazer essas mudanças, temos que respeitar as nossas vontades e viver no equilíbrio, que é a chave de tudo. Não é cortando algo que gostamos muito ou incluindo algo que detestamos, que a gente vai ter resultado positivo. A hora da refeição tem que ser tão prazerosa para mim quanto a hora de treinar.

Eu ainda moro com os meus pais e minha mãe sempre foi uma pessoa que gosta muito de verduras e legumes, portanto, na minha casa sempre tem isso, mas eu não consumia por pura preguiça de preparar, ia sempre no mais fácil, que nem sempre era o mais saudável.

O André é uma das figuras mais importantes nesse processo de mudança alimentar, porque além de ser meu nutricionista, trabalhamos na mesma academia. Ele está sempre aberto para esclarecer minhas dúvidas.

E essa abertura é essencial, não? Até porque, geralmente, a gente se vê tão distante do médico ou do profissional de saúde que não fazemos perguntas, não tiramos dúvidas e só vamos seguindo o que achamos que é o correto. Talvez, seja a maior receita para o insucesso essa postura que nós assumimos.

E acredito que isso é o mais legal das suas publicações. Você é uma profissional da área de saúde que mostra que viver com saúde é possível e é acessível sim para todo mundo que deseje, seja em menor ou em maior escala.

E nesse processo tão seu, notei também que surgiu em sua rotina outra coisa para lá de legal: as corridas. Até hoje, quantas e quais foram as provas que você fez?

Sim, as pessoas, às vezes, tem medo de perguntar as coisas para nós. Eu tento ser o mais acessível possível com todos.

Sobre as corridas, eu comecei por influência do meu irmão. Eu nunca fui muito fã de correr, mas ele começou há 7 anos e eu fui me envolvendo. Entre 2016 e 2017 eu cheguei a correr umas 5 provas, mas ia na cara e na coragem, sem treinar antes.

Ano passado parei totalmente  e só ficava vendo as publicações dele e de alguns amigos meus que correr também. Ai esse ano surgiu a oportunidade de participar da Corrida da Mulher Maravilha aqui em SP e despretensiosamente eu postei no meu story do Instagram quem das minhas alunas/amigas queria ir porque eu não queria ir sozinha. Apareceram tantas que no final fomos em 27.

Eu já participei da Corrida da Mulher Maravilha, Circuito das Estações de SP, Night Run, entre outras provas menores.

Barbara, dentre tantas vitórias e tantas dores, o que fica como lição dessa sua mudança de vida?

Sem dúvidas, o que eu mais aprendi foi sobre determinação. Eu me considerava uma pessoa sem determinação para nada. 

Com todo esse processo, essa visão mudou completamente e eu me sinto mais determinada para tudo, no trabalho, no estudo, nos relacionamentos, enfim.

E minha última pergunta: se você pudesse agorinha olhar nos olhos de quem se sente meio que como a Barbara de 2017, o que você falaria? Sei que é o tipo de pergunta impossível, mas seu carinho comigo foi tão grande nesse começo de ano que eu só posso querer que seu afeto se espalhe pelo mundo mesmo.

Eu diria para ter calma e paciência, pois tudo na vida é mutável e nenhum sentimento de tristeza dura para sempre. Com organização e foco a gente consegue chegar em qualquer lugar.

Curtiu nossa conversa com a Barbara? Veja aqui nossa entrevista com o Carlitos Baldassari, treinador de Rugby.


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